Pior que trabalhar 12 horas nas urgências de pediatria, não parando sequer para um café, para lanchar, para beber ou ir à casa de banho, apenas um curto almoço, é levar sempre com pessoas a mandar vir connosco. Mesmo que a urgência que levou os pais a levar a criança, afinal não seja tão urgente e que eu não tenha descansado um minuto. Talvez não entendam que tenho de me concentrar, que tenho de estar atenta e tenho que escrever, para o meu interesse e para o interesse do doente, tudo no computador. E isso leva tempo. É triste, mas às vezes passo mais tempo em frente a um ecrã do que a ver propriamente o doente. Mas para eles, devo estar a jogar solitário porque sempre que a porta do consultório se abre espreitam para dentro e olham-me com má cara. Não entendem, que perco tempo completar histórias clínicas de doentes, a requisitar exames, a ver resultados e a internar doentes. Mas mais triste, é dar-me conta que cada vez mais as pessoas se habituaram a reclamar por tudo e por nada. Somos médicos, mas somos humanos. Chego ao fim do dia a desfalecer e ainda venho para casa fazer o jantar.
C.